quarta-feira, 21 de março de 2012

Embolada





       A embolada é um gênero musical de origem nordestina



e tem como principal característica o curto intervalo entre as palavras e os versos, criando assim, uma melodia quase que totalmente oratória. Geralmente é feito de improviso quando do encontro de dois emboladores em uma feira, por exemplo. Na maioria das vezes a letra é satírica, cômica e descritiva. O ritmo tende a aumentar de velocidade, o que dificulta a dicção e o improviso.



     A embolada é hoje encontrada em várias regiões do Brasil, mas, sobretudo, na região
Nordeste, onde tem surgido a maioria dos emboladores, e os mais conhecidos pelo Brasil
afora. Foram esses emboladores nordestinos os responsáveis por levar a embolada para
além dos limites da região. O seu ritmo, muitas vezes denominado coco, foi “divulgado
amplamente pelo rádio e indústria do disco na década de 50 [1950], através do paraibano
Jackson do Pandeiro em parceria com Almira [Castilho] e do [também] pernambucamo
Manezinho Araújo” (Ayala, 2000a:1). Este último, tendo gravado seu primeiro disco, em
que inclui embolada, em 1933 pela Odeon (Dantas, [s.d.]).
   




      A embolada que estamos considerando como foco deste estudo, é a cantada por duplas de emboladores, onde estão presentes o texto poético cantado, uma espécie de melodia declamatória, e o acompanhamento instrumental com pandeiros, tocados por cada um dos emboladores, que realizam uma mesma linha rítmica. Este tipo de embolada é cantada em feiras, e espaços públicos em geral, como praças e ruas dos centros comerciais das cidades, bem como nas festas religiosas e profanas.
     





      TODA FEIRA NORDESTINA é uma colorida e pitoresca exposição, heterogênea em seus elementos de sabor local, principalmente nas mostras abertas de seu artesanato de cerâmica, cestos, flandres, rendas etc., rudes e maravilhosos resultados de talento dos artistas do sertão, cangaceiros, beatos e cantadores. Tornou-se famosa a feira de Caruaru, ainda mais depois do baião divulgado por Luiz Gonzaga, que não omite os mínimos detalhes daquele espetáculo folclórico do interior pernambucano. Todavia, uma das atrações mais fascinantes da feira do Nordeste é, sem dúvida, o encontro de dois emboladores, empunhando o pandeiro ou o ganzá (instrumentos de flandre, cheio de caroços de chumbo), desfiando suas rimas com a rapidez de um raio ao calor do desafio, numa autêntica justa sonora, duelo de rapsodos cablocos que aumenta de entusiasmo quanto mais aguçados são os toques de provocação partidos de cada um dos contendores. A paga é feita pelos circunstantes, que são elogiados ou satirizados conforme a reação ante os apelos feitos pelo embolador, quase sempre estendendo o pandeiro emborcado em evidente cobrança aos espectadores.
O gênero é simples e independente de qualquer composição preestabelecida quanto ao número e disposição dos versos. Há apenas um estribilho, que é repetido com intervalo maior ou menor por um dos cantadores, enquanto o outro improvisa. O metro é setissilábico e a redondilha maior; aliás, o mais comum mesmo entre os cantadores de viola, espetáculo à parte, que já obedece a modalidades diversas e que não é assunto no momento. Já se disse que o povo de língua portuguesa fala habitualmente em redondilha maior: Entre os mais conhecidos emboladores, merece citação especial o Tira-Teima, mulato alagoano, dono da extraordinária agilidade mental, hoje radicado em Brasília. Costuma denominar-se de serpente alagoana e afirma quando canta:
Não há, porém, necessidade de ir ao Nordeste para assistir desafio de embolada. Na Guanabara, na feira de São Cristóvão, é comum aparecer uma dupla de repentistas do gênero; também em São Paulo, nas imediações do largo da Concórdia, diariamente se encontram improvisadores, com seu pandeiro e seu ganzá, os alagoanos Januário e Guriatã de Coqueiro.
É justo lembrar aqui que a embolada tornou famoso, nos meios radiofônicos, o pernambucano Manuelzinho Araújo, hoje artista plástico, que trocou o ganzá pelo pincel, sem contudo perder o sabor primitivo do seu talento. Deve-se a ele a divulgação dessa modalidade de cantoria popular nas camadas fora da ambiência sertaneja
      Tradicionalmente, os pandeiros, ou os ganzás em tempos menos recentes, constituem
o acompanhamento característico da embolada; mas já se encontra emboladores acrescentando outros instrumentos, experimentando inovações para a instrumentação da embolada. Cachimbinho se fez acompanhar, além do pandeiro, por viola nordestina, zabumba e triângulo, em algumas das emboladas que está em sua fita cassete Cachimbinho e suas emboladas ([S. d.]); Cachimbinho e Geraldo Mouzinho acrescentaram triângulo, ganzá e agogô, nas emboladas do disco Cantar côco é assim (1983); Caju e Castanha juntaram aos pandeiros instrumentos como violão, cavaquinho, guitarra, baixo, teclado com programação, bateria, zabumba, e outros instrumentos de percussão, em trabalhos lançados em CD, como

Vindo lá da lagoa
(2000) e Andando de coletivo (2002). Mas mesmo estes, no último CD,

Professor de embolada
(Caju; Castanha, 2003) retomam o pandeiro como instrumento acompanhador

da embolada.

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